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sábado, 17 de dezembro de 2011

Anderson Foca, o homem que mudou o cenário musical do estado.


 Por Alessandra Albuquerque 


 Um homem baixinho, gordinho, barbudo, com uma leve calvície, sempre de bermuda e All Star. Facilmente identificado nas ruas da ribeira. Esse é Anderson Foca. 

Quando pensamos em produção de Rock em Natal, seu nome é logo lembrado. O músico e produtor Anderson Foca, é dono do Centro Cultural DoSol que desde 2004 mantém o bairro da Ribeira vivo nos fins de semana. Seu interesse por música veio desde muito cedo, quando Foca morava em Belém: “lá era perto da Zona Franca, os discos chegavam mais baratos e fui me interessando”. Aos 18 anos decidiu trabalhar com música. “Não tenho formação em música nem em Administração. Fiz universidade de Ciências Contábeis mas nem peguei meu diploma”, conta Foca.

 Foca já teve várias bandas e atualmente tem um projeto chamado Camarones Orquestra Guitarristica, que inicialmente era um projeto de estúdio e foi ganhando maturidade, conseguindo shows e hoje é uma banda que ganhou o prestígio do público potiguar, a banda já tocou em diversos festivais, não só no estado mas em outras cidades, como Rio de Janeiro.

Foca numa noite de muito Rock. (Foto: Arquivo Pessoal)

 O Centro Cultural foi criado para dar continuidade aos projetos que já existiam, como a produtora, o estúdio e o selo DoSol. Nesse complexo (produtora e estúdio) já foram feitos diversos discos de artistas potiguares, todos com o selo DoSol.  No palco do DoSol já passaram grandes bandas nacionais como Matanza, Rock Rockets, Dominatrix, Dead Fish, Confronto, bandas potiguares como Talma&Gadelha, Seu Zé, AK-47, I.T.E.P, Deadly Fate e bandas internacionais como The Expoited, The Donnas, Danko Jones e muitas outras.

O DoSol promove todo ano um dos maiores eventos de música do estado, o Festival DoSol, com grandes atrações e muitos dias de festa. Para Foca o sucesso do festival é resultado da confiança da cena musical do Rio Grande do Norte. “Sempre tivemos um grande comprometimento com a cena musical do RN e isso foi nos fazendo crescer aos poucos e de maneira sólida. Não sabemos o dia de amanhã, mas de fato crescemos muito e podemos crescer ainda mais.”

Apesar do atual sucesso o festival já teve suas dificuldades. As primeiras edições não contavam com nenhum tipo de patrocínio e algumas edições não geraram nenhum lucro. “Como não temos grandes artistas do mainstream nacional nossa bilheteria não representa nem 30% dos custos finais do festival. É bem difícil conseguir colocar uma mostra como o DoSol na rua, com preços de ingresso abaixo do mercado e oferecendo artistas novos e de conteúdo sem patrocínio, mas já fizemos loucuras antes e faremos de novo se necessário.” Mesmo com algumas dificuldades, Foca se diz realizado com o festival e diz que vale muito a pena “até porque o que ficou para trás agora é história. Olhar para frente que é o que importa!”

Muito além do grau de parentesco


Por Vinícius Vieira

Já se imaginou ficar preso com sua família na casa de Gilberto Freyre? Ou mesmo ter ouvido os belos versos do boêmio poeta pernambucano evocados pelo próprio Ascenso Ferreira? Se preferir a cultura popular, que tal conversar sobre o baião com o mestre Luis Gonzaga e seu parceiro de baião, Zé Dantas? Caso prefira o inédito, queria ter presenciado Ary Barroso dançar como uma baiana Aquarela do Brasil, o samba-exaltação que viria a se tornar o mais famoso dessa categoria? Parece impossível a muitos, mas não para Anna Maria Cascudo Barreto, 75, que presenciou todos esses momentos com figuras antológicas do cenário artístico brasileiro. É filha de Luís da Câmara Cascudo, historiador e antropólogo que mais se dedicou ao estudo da nossa cultura e cujo conjunto da obra está calculado em mais de dez mil volumes, aproximadamente. Por causa disso, o nome de seu pai, sem dúvida, é o mais lembrado no Rio Grande do Norte nessa categoria.
Herdou dele a propriedade para falar sobre a cultura popular.“Tudo é cultura popular. O papel dela na formação da nossa sociedade é múltiplo e pode ser encontrado no cotidiano. O fato de eu ter-lhe oferecido um cafezinho ou água antes de iniciar a entrevista é estudado pelo folclore e pela cultura popular”, teoriza. Herdou, também, a paixão ao falar sobre Natal, sua história e dois elementos até hoje importantes para os natalenses: o Forte dos Reis Magos e o Rio Potengi. A fala de Anna Maria é tão carregada de emoção e detalhes que nos sentimos transportados para o momento da fundação da cidade, no final do século XVI “Sou apaixonada e fascinada pela história de Natal. Uma vez, meu pai, em 1947, me pediu para olhar o rio com os olhos dos primitivos habitantes. Pediu-me, também, para ver o desvendar dos portugueses e como eles ficaram assombrados com a beleza da cidade e, assim, construíram o Forte num local estratégico”, diz.   
Mas o fato de ser filha de Câmara Cascudo não facilitou tudo. Seu pai fazia questão de que a filha seguisse caminho com suas próprias pernas. “Tive a alegria de ser aluna de Luís da Câmara Cascudo, mas, ao mesmo tempo, ele não escrevia nada para mim. Queria que eu fizesse as coisas com as minhas próprias asinhas. No começo, achei péssimo, mas hoje agradeço a Deus pela atitude dele”, relembra.
Foi com esforço que conquistou cadeiras na Academia Norte-riograndense de Letras, na Academia Brasileira de História, Arte e Cultura e na Academia de Letras Jurídicas, além de ser sócia de outras Instituições que também têm a finalidade de cultivar a língua portuguesa. “Cada prêmio ou conquista foi um momento de muita emoção, cada um foi um instante de ternura e foi um momento de muita gratificação”. Mas Anna Maria lembra carinhosamente a posse na Academia Paulista de Letras, quando foi ouvida por Lygia Fagundes Telles, Ruth Rocha, pelo crítico de literatura Fábio Lucas e o poeta Paulo Bonfim.


Anna Maria fala sobre suas experiências à revista 84  (Foto: Vinícius Vieira/Revista84)

Pioneirismo no jornalismo e no Judiciário

Curiosidade aguçada e o estímulo familiar foram, sem dúvida, os motivos pelos quais Anna Maria adquiriu paixão pela leitura, que a acompanha até hoje. Essa paixão cultivada desde cedo foi responsável pelo ingresso dela na área do jornalismo aos 13 anos, fato pioneiro. Na época, ela foi convidada para revisar matérias do tradicional jornal “A República”, ganhando, algum tempo depois, uma coluna sobre música, arte e moda.
Já no período da ditadura militar, foi convidada pelo reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte à época, Genário Fonseca, para apresentar um programa na recém-inaugurada TV Universitária: o Semanários. Voltado à arte e à cultura, o programa foi logo destinado a entrevistas com pessoas que se destacavam no contexto da cultura popular. Teve de enfrentar alguns preconceitos por causa disso. “Uma vez, o diretor da TV Universitária havia considerado que eu tinha levado muita ‘gentinha’ para a TV, mas na realidade eram dançarinos de bambelô. Antes de nós irmos ao ar, o diretor apagou as luzes e ainda me disse que eu tinha amizades muito estranhas. Eu respondi que eram artistas que, infelizmente, não eram famosos”. Mas a carreira na TV também foi marcada por recordes. Segundo Anna Maria, numa tarde em que mostrava um escultor de Ceará-Mirim confeccionando uma peça, seu Semanários teve mais telespectadores potiguares do que o programa apresentado pelo avassalador de audiência Abelardo Barbosa, o Chacrinha.   
No Judiciário, após se formar em direito, foi a primeira mulher a atuar no Júri de Natal, como promotora adjunta. Quando assumiu definitivamente a Promotoria de Natal, Anna Maria relata que não observou atitudes preconceituosas. “Era muito carinhosa com os Juízes. Papai intercedeu por mim e todos foram muito cordiais, tanto é que me sentia como filha dos maiores juízes do Estado: Oscar Siqueira, Rosemiro Robson e Paulo Luz. Aprendi muito com eles”, lembra. Analisando toda a sua carreira, ela afirma que seu pioneirismo aconteceu normalmente, sem perceber de que se tratava de algo especial.

Relação com as Forças Armadas

Muitos dos prêmios, medalhas e homenagens recebidas durante seus 75 anos de vida advém das Forças Armadas. Anna Maria é neta do Coronel Francisco Justino de Oliveira Cascudo, da Guarda Nacional, atual Polícia Militar do Rio Grande do Norte. É na sua descendência que justifica sua paixão pelas Forças Armadas e comenta, em alguns de seus livros, que há uma relação mágica bilateral entre os militares e a Cidade do Natal.
A admiração pelo trabalho das Forças Armadas levou Anna Maria a se integrar ao Conselho da Fundação Rampa, a qual se dedica arduamente no resgate da participação de Natal na história da aviação mundial. “O Rio Grande do Norte tem uma história aeronáutica profunda e rica”, enfatiza, ao lembrar do vôo de mais de 49 horas, sem escalas, realizado por Carlo Del Prete e Arturo Ferrarim entre a cidade de Roma e o Brasil. O feito rendeu um presente de Mussolini aos potiguares, a Coluna Capitolina. Para Anna Maria, estudar e escrever sobre tal acontecimento rendeu uma medalha da Aeronáutica, devido ao ensaio de abertura do livro “Cavaleiros do Céu”.

 Trabalho no Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo

Anna Maria é a presidente do Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo, pessoa jurídica sem fins lucrativos, cuja sede foi, durante quase 40 anos, a residência oficial de Luís da Câmara Cascudo e onde o historiador produziu grande parte de sua obra relevante. Embora seja um local que salvaguarda importantes estudos sobre a cultura brasileira, todo o Instituto foi bancado com recursos próprios, através de venda de imóveis. O poder público não a procurou assim que o Instituto foi inaugurado, em 2007, mas atualmente ela foi agraciada com visitas da ministra da Cultura, Anna de Holanda, além das chefes do Executivo estadual e municipal. Anna Maria espera que as visitas sensibilizem os governantes a contribuir com o trabalho do Instituto. “Estamos fazendo um trabalho de digitalização das correspondências de Câmara Cascudo com Mário de Andrade, Assis Chateaubriand e Monteiro Lobato. Todas essas cartas digitalizadas serão um legado a nossos pesquisadores”, afirma. 
Para mantê-lo, existe uma loja no local, que disponibiliza obras da autoria de Luís da Câmara Cascudo e estudos feitos sobre ele por outros pesquisadores. O visitante também pode adquirir peculiaridades, como poesias musicadas e contos de cascudo em folhetos de cordel. Para entrar na casa com uma visita guiada, é cobrada uma taxa de R$ 3,00. 
Além de preservar e divulgar o patrimônio de seu pai, Anna Maria diz que o que a realmente motiva é a paixão pela cultura popular que adquiriu dele. Nesse sentido, ela convida todos a reconhecer o trabalho de Luis da Câmara Cascudo, pois “eu não sou somente a filha dele. Ele amou, estudou, valorizou os potiguares. Portanto, todos eles são filhos de Luís da Câmara Cascudo”.

O imponente Instituto Câmara Cascudo localiza-se na avenida homônima, na Cidade Alta
(Foto: Acervo do jornal Tribuna do Norte)


SERVIÇO: Instituto Câmara Cascudo

Endereço: Avenida Câmara Cascudo, 377, Cidade Alta – Natal/RN
Telefone: (84) 3222-3293 e (84) 3221-0131
Home Page para demais informações: http://www.cascudo.org.br


“Fico com raiva de cegos que se fazem de coitados”


Por Andressa Carvalho Vieira

Sidney Trindade, cego desde nascença, tem formação tecnológica, é músico, pesquisador, fala três idiomas e trabalha desde os 24 anos

            Demorei a perceber que Sidney Trindade era completamente cego quando em ocasião de nosso primeiro contato. Eu, uma voluntária iniciante em um projeto de ledores para cegos. Ele, um dos beneficiados e também colaborador veterano do grupo. As crônicas que narrava sobre episódios da sua condição de deficiente visual contrastavam com sua segurança, senso de direção, facilidade de deslocamento e bom humor. Ao menos a meu ver, até então, ignorante sobre o tema.
            “Um dia um homem me ofereceu ajuda no IFRN. E eu nunca nego ajuda. Mas o rapaz segurou meu braço e foi me puxando, então eu disse: ‘Amigo, vamos fazer assim, eu seguro no seu ombro, vou sentindo seus passos e você vai me guiando, certo?’ Assim fomos andando, subindo alto, descendo alto, calçada, rampa, virando para um lado e outro. Quando chegamos ao destino, o homem falou para mim, em tom de surpresa: ‘Mas você é bem adestradinho, né?’ Dentro da ignorância dele, ele estava me fazendo um elogio, então eu ri e consenti. ‘Sim, amigo, eu sou sim adestrado!”, contava um Sidney descontraído, que consegue fazer piada mesmo das situações que pareciam adversas.
            “E o engraçado é quando acham que cego é surdo”, continuava. “Certo dia, fui comprar alguma coisa em uma loja e o atendente, quando percebeu que eu era cego, falou comigo quase gritando. Eu respondi mais alto ainda: ‘Fale um pouco mais alto, não estou entendendo não!” Sidney não era o tipo arrogante. Mas também passava longe do título de paciente. É um “tirador de onda”, como se define, e não perde o fio da piada, que, em merecidas vezes, pode aproximar-se ao sarcasmo.
            Desde criança, brincou e driblou as situações adversas e intimidadoras. A primeira delas aconteceu no dia de seu nascimento. A mãe tinha apenas oito meses de gestação quando enfrentou um complicado trabalho de parto. A falta de oxigenação fez com que Sidney nascesse “roxo” e deixou como sequela a atrofia do seu nervo óptico, tornando-o cego.  Apenas 45 dias mais tarde a mãe percebeu que havia algo de errado com a visão do filho recém-nascido. Após o desespero inicial, levou-o ao médico, que constatou que Sidney, de fato, era cego. A mãe foi recomendada a criar Sidney da mesma forma que criava seus dois irmãos mais velhos, já que ele era praticamente uma pessoa normal. Ela levou ao pé da letra. Sidney cresceu jogando bola, andando de skate, patins, bicicleta e pegando onda em Ponta Negra. Aos 4 anos, Sidney ganhou uma bicicleta e andava tranquilamente pela Av. Capitão Mor Gouveia, que, na época, ainda não havia sido duplicada. Situava-se por sons e movimentos, além de já conhecer bem a região, onde sua vó morava. Quando precisava ir a lugares mais distantes, permitia que a irmã fosse à frente e, pelo barulho da bicicleta dela, ele reconhecia obstáculos e curvas. Nunca esbarrou em nada.


Em sua rotina de trabalho, que inclui, aulas de espanhol, tocar em orquestra e golbol, além de ser o namorado a Isabel.

            A mãe, Dona Miriam, era professora. Quando Sidney tinha por volta dos seis anos, ela identificou a necessidade de alfabetizá-lo.  Abriu mão da vida profissional e começou a desenvolver os mais variados métodos para isso: colava linhas em papel para que ele sentisse o formato das letras, comprava letras de plástico, matrizes de letras, sempre procurando novos materiais. Na época, Sidney ainda enxergava pouco, entre 3 e 5% (hoje ele só consegue enxergar a luz). A mãe colocava-o em um quarto escuro e com um pincel atômico preto e uma cartolina branca ela o fazia enxergar os formatos das letras. Assim ele obteve conhecimento e acostumou-se com os símbolos do alfabeto latino. Na época, ainda não conhecia o braile, alfabeto especial e adaptado para cegos.
            Após alfabetizá-lo, Miriam decidiu que deveria tentar matriculá-lo em uma escola normal. Sidney foi aceito no Instituto de Alfabetização e Arte (hoje, CEI), mas o despreparo da equipe da instituição para recebê-lo fez com que não ficasse muito tempo ali. “Os professores não deixavam eu fazer o que eu fazia em casa”, conta. “Que era o quê?”, pergunto. “Tudo!”, ele responde como se fosse óbvio. “Eu ia para a aula e pediam para que eu sentasse numa cadeira. Quando eu levantava, corriam dois, três, perguntando o que eu queria. Eu não brincava com as outras crianças. E criança gosta é de brincar, não é?” Quando a mãe perguntou se ele estava gostando do colégio, Sidney foi sincero. Não gostava pois não conseguia sentir-se normal em meio a todo aquele cuidado excessivo. Pela experiência que teve, hoje ele defende que sejam mantidas as escolas específicas para deficientes visuais.
            Sidney continuou sendo educado pela mãe, em casa, até que, em abril de 1984, quando tinha 10 anos, surgiu a ideia de levá-lo para o Instituto dos Cegos. Como a mãe já o havia alfabetizado, Sidney encontrou um único empasse para nivelar-se com os alunos de primeiro ano: não sabia o braile. Mas isso não o impediu de acompanhar a turma. Paralelo ao conteúdo programado para o primeiro ano, a professora da escola começou a ensinar-lhe o braile em várias lições. Acostumado com os métodos de ensino da mãe, Sidney levou o alfabeto para casa e não precisou de mais de três dias para aprendê-lo por completo, inclusive os números e demais caracteres. Permaneceu no Instituto dos Cegos por 4 anos, até o final do Ensino Fundamental I.
Sidney passou um ano sem estudar e, aos 16 anos, entrou no supletivo a fim de concluir o Ensino Fundamental II. Não teve paciência para todas as provas do supletivo e preferiu fazer os “provões”: uma prova de cada disciplina e se passasse estaria aprovado no nível básico. Toda tarde, a mãe sentava e lia um pouco do conteúdo para ele e, em um ano, após prestar e passar em todas as provas, concluiu o 1º grau. Paralelo a isso, Sidney tinha aulas de música do conservatório Frederico Chopin, onde estudava teclado popular.
 Após passar mais dois anos sem estudar, resolveu fazer o Ensino Médio no Colégio Estadual Padre Miguelino. Quando concluiu o nível médio, devido à escassez de material e mão de obra qualificada na época, Sidney não quis mais estudar. Já músico profissional, começou a tocar durante a noite e fazer cursos a fim de qualificar-se. “Como estava sem estudar, se me dissessem que havia um curso de enrolar cordão em prego, eu fazia”, conta.  Alguns dos cursos deram a Sidney habilidade em informática e isso fez com que ele fosse convidado, em 2001, a dar aulas na Associação dos Deficientes Visuais.
“Fiquei lá na Associação até 2003, saí porque todos os deficientes já tinham passado pelas minhas mãos e o povo estava demorando a cegar. Daí não tinha mais aluno”, brinca. Logo em seguida, Sidney recebeu o convite de acompanhar um músico de Natal, também cego, o cantor e compositor José Barros. Aproveitou para fazer também um curso de idiomas de Inglês no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN). No começo de 2006, resolveu prestar vestibular na Universidade Federal do Rio Grande do Norte para bacharelado em piano, já que, agora, havia mais facilidades na busca por informações para pessoas cegas. Conseguiu uma bolsa no curso extensivo para vestibular do Colégio e Curso CDF e dedicou-se a estudar. Incentivado pela professora do curso de Inglês, resolveu também prestar vestibular para o curso de Tecnologia em Desenvolvimento e Análise de Sistemas, na época, Tecnologia em Desenvolvimento e Software, no IFRN.
Quando passou no vestibular do IFRN, desistiu de tentar bacharelado em Música. Foi convocado para uma reunião no IFRN, em que professores e funcionários de cargos importantes no curso tentaram convencê-lo de que aquele não seria o melhor curso para um deficiente visual, por ser muito difícil. Sugeriram a Sidney escolher outro curso dentro de qualquer departamento para que fosse transferido. Ele escolheu permanecer no curso, mesmo com as dificuldades que eram apresentadas. Contou com vários professores aliados no decorrer do curso, que “compraram a ideia” de ter um aluno deficiente visual e, a cada nota boa, Sidney provava conseguir cumprir a responsabilidade que havia assumido. “Quando fechei uma prova de Eletrônica Digital, no dia seguinte, até o porteiro da escola me deu parabéns. Mas também aconteceu de ser reprovado em uma disciplina por dois décimos na média. Ninguém passava a mão na minha cabeça porque eu sou cego”.
Sidney escolheu para Trabalho de Conclusão de Curso desenvolver algo que pudesse ajudar a pessoas que são iguais a ele com dificuldades que ele também enfrenta. Daí surgiu o e-guia, aplicativo para celular que ele aperfeiçoa até hoje. Trata-se de um sistema digital de identificar ônibus. A função é avisar, através de um aplicativo no celular, quanto tempo falta para que determinado ônibus chegue a uma parada específica. O projeto auxiliaria não só pessoas cegas como todos aqueles que dependem do sistema de transporte coletivo. O primeiro protótipo do e-guia foi apresentado no Fórum Mundial de Educação Tecnológica no final de 2009, em Brasília.
Após o término da graduação, Sidney entrou no Mestrado de Engenharia de Computação na UFRN como aluno especial e começou a inscrever-se em concursos. Logo passou no concurso do Ministério Público da União, e desistiu do Mestrado, por receio de ser chamado para assumir o cargo e não conseguir concluir o curso. Enquanto o chamado não vinha, foi contratado pela Superintendência de Informática da UFRN para tornar o sistema SIGAA acessível para deficientes visuais. Hoje em dia trabalha para a Funpec no Laboratório de Acessibilidade da UFRN, cuidando da parte tecnológica que necessita de mão-de-obra específica, como a impressora braile.
Embora nunca tenha tido problemas com empregos, Sidney afirma que o mercado de trabalho para deficientes visuais, em geral, é muito difícil. “Se você não fizer um concurso, não tem chance. A imagem que a sociedade tem de um deficiente visual é aquele coitadinho que fica em frente às Americanas pedindo esmola. E alguns querem mesmo ser coitados. Tenho raiva desse tipo. Cego não é coitado.”, explica.


"O cuidado excessivo faz com que eu não me sinta normal".

Aos 35 anos, além do trabalho e das pesquisas para o e-guia, Sidney faz curso de Espanhol no IFRN, toca na orquestra de violão da UFRN, joga golbol (espécie de futebol para deficientes visuais) e ainda tem uma namorada há 12 anos, Isabel. “Vocês homens são todos iguais mesmo. Sempre enrolando as mulheres. Já está na hora de casar, não?”, pergunto, em tom de brincadeira, ao fim da entrevista. “É tudo um ciclo”, ele responde. “Depois do casamento, vem o divórcio. E eu ainda quero ficar com ela algum tempo, então não caso”. Quase me convenceu.
Ofereci a Sidney uma carona para casa. Eu havia ganhado um carro há dois dias e ainda fazia confusão com os caminhos. Ele foi me guiando pela UFRN até a sua casa, que não ficava tão longe, no bairro chamado Potilândia. Avisava exatamente onde dobrar e sabia mais detalhes sobre o caminho que eu fazia quase todos os dias que eu mesma. Durante o percurso, me perdi. Sidney, pacientemente, explicou-me como voltar para o caminho certo. Com dois olhos funcionando razoavelmente bem e duas lentes que completavam a potência deles, senti-me mais deficiente que Sidney, “cego” desde sempre.




sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Uma poesia angicana

Por Iwska Isadora de Souza

          Educador por profissão e poeta por amor às palavras. Amor esse, que tornou-o uma radiante representação da poesia potiguar. Nasceu em Angicos, interior do Rio Grande do Norte, em 28 de junho de 1943. Filho de Luís da França Martins e Lutécia Peres de Araújo é o segundo filho do casal. Uma irmã mais velha e cinco irmãos, todos “Josés”. Segundo ele, o nome em comum entre eles foi devido a uma promessa que sua mãe, bastante religiosa, fez ao Padroeiro da cidade, São José dos Angicos. Aprendeu a ler com sua avó Maria das Chagas Martins, mais conhecida como Dona Liquinha, e foi ela quem o “desarnou”.

          Sobre a infância em solo angicano, o poeta conta, com olhares mergulhados a tantas lembranças que amava ir às cantorias com seu avô, e sendo o neto mais velho, era o fiel companheiro que assistia as violas ganharem vida. Ouvia as cantorias e observava a rima nas palavras. Dizia que elas eram “amigas”, e ninguém precisou ensinar isso ao pequeno Jarbas. Tinha o costume de misturar os sentidos, atribuindo cores e sabor ao seu cotidiano. Passava as férias em Natal, e quando pensava na cidade, lembrava-se de uma textura aveludada. “Açúcar tinha cor de nuvem e Angicos uma cor levemente alaranjada”. Era coisa de criança e ele não contava isso para ninguém. Mais tarde, estudando Literatura no ensino secundário, aprendeu com alguns autores sobre a Sinestesia e percebeu que existia uma explicação para as estranhezas de menino. Fez seu primeiro poema aos dez anos de idade, homenageando Nossa Senhora da Apresentação. O sentir poético nasce com a pessoa. Ele já era poeta e não sabia.

          A juventude de Jarbas Martins oscilava entre os desejos de ensinar e o encanto pela poesia. Foi professor pela primeira vez no Colégio Atheneu, bairro de Petrópolis, onde dava aulas de Literatura Brasileira e Portuguesa. Jarbas participou do movimento estudantil de 1963, estudou Direito na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde teve uma forte relação com professores que também eram escritores, como Edgar Barbosa e Câmara Cascudo. Com menos de trinta anos de idade, prestou concurso para o Ministério Público, comprou seu primeiro carro e atuou como Promotor de Justiça, mas nunca abandonando as salas de aula. Era bastante cobiçado pelas moças e comenta que essa fase de sua vida foi um período marcante, onde o sentimento de indepêndência se firmava cada vez mais.

          Jarbas comenta que sempre foi um homem marcado pelas paixões, e o cinema está entre elas. Jarbas Martins foi um dos fundadores do Cine Clube Tirol e afirma que foi a partir daí que começou a se falar do Cinema como Arte, por volta dos anos 60. Sendo um homem conversador, afirma que sempre gostou de frequentar cafés para compartilhar conhecimentos. O Café São Luíz foi local frequentado por ele durante mais de vinte anos, o que resultou em encontros em livrarias e cafés de shopping. Hoje, Jarbas escreve mais poesia que antigamente, e afirma que as redes socias contribuem para isso. O poeta lançou em 1994 o livro 14 versus 14 – Itinerário do Soneto Norte-rio-grandense. Em 1996 Contracanto, e em 2008 lançou Anti-elegia para Emmanuel Bezerra, um nome por fazer. Diz que em breve lançará uma coletânia de inéditos.

          Formado em Direito (UFRN) com especialização em Ciência Política (PUC/SP), Promotor de Justiça aposentado, atualmente é professor da UFRN, lecionando as disciplinas Cultura Brasileira e Comunicação e Artes Visuais. No Festival Literário de Pipa (Plipipa) de 2011, Jarbas foi mediador da mesa de Arnaldo Antunes.  O poeta angicano hoje mora em Ponta Negra (Natal-RN) com sua esposa Irani Rodrigues e seu filho Lucas. Jarbas Martins é sem dúvida, um dos poetas mais destacados do Rio Grande do Norte. Sempre que pode, visita sua querida mãe, que tem noventa anos. Vascaino e ABCdista de paixão, considera-se paternalista e confessa que sua grande felicidade nos últimos oito anos é ser avô.


Jarbas Martins como mediador na Flipipa de 2011


A repórter Iwska Isadora de Souza e o poeta Jarbas Martins durante a entrevista











“A vida possui um vazio. Gostaríamos que ela fosse diferente, por isso a gente escreve. Temos que criar ou fingir que estamos criando.” (Jarbas Martins)